Édiporrei

decadenciaÀ espera de um exame de colonoscopia, o psicólogo Sérgio revê uma mulher com quem teve um relacionamento trinta anos atrás. Beatriz (ou B., como a chamava) é vinte anos mais velha, e agora claudica pelo corredor do consultório com o auxílio de uma bengala.

Esse é o primeiro sinal de Dec(ad)ência, romance de Manoel Herzog. A história ainda vai abordar outros estados análogos de ruína.

Após a mirada, Sérgio passa a visitar o passado em que dividia um consultório com o amigo Saulo, atendendo aos motoristas de uma companhia de ônibus. Na época, já tinha falhado em três casamentos, era pai de seis filhos e louvava uma vasectomia que “o impedia de cometer um novo erro”.

Consultado Beatriz (que o havia recepcionado em sua primeira aula na faculdade de Psicologia), dá início a um antiético caso de transas e conflitos com ela, tornando-se alvo de gozações do amigo. Ocorre que a relação com a mulher mais velha guarda um vínculo com a relação com a própria mãe, tal num complexo de Édipo.

Herzog dá uma voz saborosamente mordaz para seu protagonista que, no papel de enfant terrible, revive seus relacionamentos falidos, reverberando sua misoginia no mesmo volume que suas neuroses, compulsões e visão sardônica de mundo.

Freud é o deus protetor. E a vida de Sérgio é uma espécie de representação da teoria psicanalítica dos instintos, nos estágios anal, fálico, latente e genital.

Dec(ad)ência traz um personagem que faria inveja aos tipos criados por Howard Jacobson.

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Livro: Dec(ad)ência

Editora: Patuá

Avaliação: Muito bom

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