Deus desatino

enfeiticadosPublicada originalmente em 1984, a premiada antologia Enfeitiçados todos nós ganha uma nova edição acrescida de três contos e ilustrações de Enio Squeff.

O título faz referência ao universo fantasmal engendrado pelo gaúcho Lourenço Cazarré, que lembra de imediato a Comala do mexicano Juan Rulfo, em sua densidade atmosférica preenchida de espantos e loucura, de uma agudeza de alto poder alusivo e pendor alegorizante.

É como um realismo mágico no qual o insólito campesino se processa a partir do desencanto, da introspecção psicológica dos personagens que espiam dentro de suas próprias mazelas, um poço de tormentos traduzidos em ações de puro mal, de pesadelo e terror.

Vide “Urano”, articulado por meio de duas vozes, dois algozes de um pária social.

Desse linhagem de fabulosos contos, apresentam-se ainda “Na hora da sesta”, sobre o assassinato de um menino, e “Alcinda”, o melhor do livro, no qual uma donzela abandonada pelo noivo canaliza sua amargura em sessões públicas de gratificação sexual.

Cazarré confecciona suas tramas por meio de uma linguagem sofisticada, organicamente imagética, que se cumpre a um estilo místico de se arquitetar o ordinário de vilas do interior povoadas por gente vulnerável e acólita a um deus do desatino, a um reino de pecados e sacramentos.

Não por menos, “Enfeitiçados todos nós”, o conto que nomeia a antologia, é uma narrativa alegórica sobre a criação do mundo.

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Livro: Enfeitiçados todos nós

Editora: Insular

Avaliação: Bom

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