Mitografia

garroEmbora publicado originalmente em 1963, o romance As lembranças do porvir foi escrito no início dos anos 50.

Por conta da data, há um pensamento de que o livro de Elena Garro foi precursor do realismo mágico (o obrigatório Cem anos de solidão, por exemplo, foi publicado em 67), contudo a própria autora mexicana rechaçava o título por considerá-lo uma denominação meramente mercadológica.

Controvérsias à parte (e a vida de Garro seria repleta delas), o romance é um dos títulos seminais da literatura latino-americana.

Assim como fez seu conterrâneo Juan Rulfo, em sua obra-prima Pedro Páramo, As lembranças do porvir constrói todo um clima fantasmal na articulação de uma trama de profundo aspecto sociopolítico, no qual o eixo temático se move à reflexão dos ecos da revolução mexicana.

O inusitado já se denota na condução do enredo, narrado em primeira pessoa pelo povoado de Ixtepec. Essa voz suprema, que funciona como uma entidade coletiva, observa seu território em dois tempos de domínio dos militares, sob os mandos do sanguinolento general Francisco Rosas.

Dentre os habitantes que circulam por este espaço, estão os irmãos Moncada (Nicolás, Juan e Isabel), que terão influentes participações na luta contra a opressão e a crueldade de Rosas, cujo símbolo de tirania são os cadáveres dos rebeldes pendurados nos galhos das árvores.

Tudo se encaminha para a manutenção do estado de terror, até que, anos depois, o aparecimento de um forasteiro causará a desconstrução do vetor da maldade, a partir de seu ponto frágil: a paixão pela misteriosa Julia, com quem viverá uma relação doentia, envolvendo ainda uma outra personagem.

Garro tem uma escrita plasticamente poética, que produz e emparelha sequência de imagens, provendo ao texto um caráter de formação de mitos.

Desse modo, toda uma discussão crítica relacionada a temas como violação de direitos, instrumento religioso e força feminina são tratados sob o manto da ficção, estabelecendo um circuito de sentidos que mobilizou a um grupo de autores a utilizar a literatura para explicitar as agruras da realidade de seus países.

No entanto, o que torna tão surpreendente (e terrível) o enredo do septuagenário As lembranças do porvir é que ilustra sistemas ainda vigentes nos dias de hoje.

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Livro: As lembranças do porvir

Editora: Arte & Letra

Avaliação: Muito Bom

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