Wally

tristeTriste, do gaúcho Rafael Sica, é, também por conta de seu formato, um calendário de solidões. Página a página, o leitor é apresentado a uma série de serigrafias que, a despeito das composições vastas e espantosamente detalhadas, direciona o olhar sempre para um personagem cabisbaixo, abraçado aos seus joelhos, mofino.

Essa figura, singela ao mesmo tempo super expressiva, habita cenários com alto grau de desolação. Cidades arruinadas, escombros, fósseis; retratos distintos de um mesmo mundo doente, no qual o ser humano mínimo, cercado pelo vazio ou pela avalanche feia, representa o homem moderno cada vez mais isolado numa sociedade de excessos.

Simbolicamente, há muitos caminhos e possibilidades de interpretação. De Freud, de Luto e melancolia, a Solomon, de O demônio do meio-dia. Mas, diante das medidas defendidas e executadas pelo atual presidente e seu estafe, não há como não associar o personagem de Sica a uma espécie de Onde está Wally?, do governo Bolsonaro.

Sabe aquele magricela, de óculos redondos e gorro, que fica escondido numa página entupida de ilustrações? No governo Bolsonaro, ele é uma criatura triste, monocromática, em meio a uma área desmatada, a um incêndio florestal, a um oceano poluído, a uma aldeia indígena desabitada.

E não precisa procurar muito, pois está bem na cara. Se, sabe-se lá como, você ainda não viu, ainda dá tempo. Pare de encarar o quadro só na direita.

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Livro: Triste

Editora: Lote 42

Avaliação: Muito bom

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